A arte da solidão

solidaoPor mais que as pessoas queiram se expressar, não são raros os casos em que apenas as palavras pouco podem ajudar. Elas são capazes de oferecer uma dimensão do que se experimenta no encontro com o outro, no encontro com os desejos, com um afeto, com a responsabilidade ou mesmo com o incerto. Os signos que emitimos – enquanto uma verdadeira sopa de letrinhas – nem sempre são suficientes para demonstrar sua cor, seu aroma, sua consistência ou mesmo seu sabor. Paradoxalmente, se pudéssemos isolar uma experiência comum a todos nós – mesmo que ela possa variar – e que jamais deixou de nos habitar, não menos que a solidão iríamos encontrar. Tão cruel quanto inspiradora. Tão essencial quanto devastadora.

Solidão não é sinônimo de tristeza, nem mesmo de depressão – apesar da rima. Não é sinônimo de isolamento e muito menos de negação. Pelo contrário, pode ser ativa, positiva, criativa. Ação! Estar só é estar na companhia de forças diversas, e isso faz dela um tanto controversa. Há pensamento na solidão, bem como também há a intrusão da solidão no pensamento. Para muitos uma verdadeira revolução e para outros um amargo tormento.

Não é possível abandonar a solidão por completo ou deixá-la sozinha, pois cedo ou tarde ela é sempre uma companhia.

Seja para dormir, sentir, falar, se expressar. Seja na responsabilidade, na consequência de nossas escolhas ou mesmo no meio de uma multidão na cidade. Há muitas alternativas para se conviver com ela como é o caso das terapias, de uma análise ou na concentração de uma meditação. Existem também as novelas, os livros, as caminhadas e as cochiladas. E, inclusive diálogo e o monólogo. Existem os estudos, o trabalho, a família e os amigos, apesar de muitos acreditarem que uma boa companhia seria, para a solidão, um verdadeiro perigo. Quando estamos com quem amamos, muitos têm a convicção de que a solidão seria uma grave ameaça, pois o amor enche suas vidas de graça.

No entanto, aos desavisados, estar só pode ser uma oportunidade de ganhar fôlego, e confundem solidão com abandono, desamparo ou sinônimo de tristeza. Pode até ser que seja revestida assim, mas sobre isso temos mais a revelar sobre os efeitos de um narcisismo desenfreado – em que se deseja ser desejado – do que sobre a natureza da tristeza. Sair do rebanho, destacar, descolar, ter sucesso, cuidar de si, nada disso seria possíveis mantendo-se em uma alienação com o outro, numa servidão voluntária, em um desbussolamento quanto aos próprios desejos, em um clamor pela dependência ou entregue ao domínio da carência.

A solidão pode esvaziar as tão dóceis palavras, pode desamparar, mas sem a angústia ninguém sai do lugar. Aliás, tanto a invenção, o sucesso e a solidão são intransmissíveis, nenhuma palavra pode lhes alcançar para ensinar seus segredos ou transferir suas dores ou sabores. A solidão pode ser, portanto, tão dolorosa quanto gloriosa.

Solidão e liberdade são tão íntimas quanto duas solidões que se encontram, se simpatizam e se alegram, sem que uma aniquile a outra. Estar só, no final das contas, não é negar a presença de nossos amigos, amores ou mesmo dos desafetos, mas é afirmar a inevitável condição da permanente presença de si. É saber se cuidar, se suportar e se transformar sem qualquer garantia de felicidade. É um processo análogo à troca de pele, em que abandonamos nossas partes lesionadas, adoecidas ou mesmo mortas. E isso não se aprende em nenhuma universidade.

Alexandre V. Brito

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