A linguagem e o poder das palavras

força das palavrasPor muito tempo a humanidade acreditou que as palavras eram extraídas do mundo e que estavam em conformidade com ele. Bastariam ser descobertas e desbravadas. Haveria, assim, uma reciprocidade perfeita entre as palavras e as coisas do mundo (ou fora dele), como se fossem equivalentes, justapostos e um designando o outro. Ou seja, nossos enunciados estariam sempre em harmonia com o todo, engajado nas engrenagens das coisas e as coisas nas palavras.

Neste caso, as palavras poderiam, no máximo, descrever as coisas ou dizer o inevitável. Uma transmissão sem traição. Estariam amarradas às contingências, à história, às descrições, aos costumes, aos conceitos e adequadas aos afetos apenas expressando-os. Seria apenas uma serva de nossa consciência e para a utilidade de nossa vontade.

No entanto, mesmo que tenha ocupado lugares de prestígio em determinados sistemas do pensamento e até mesmo contemplada enquanto fundamental para a compreensão do mundo, nos últimos dois séculos a palavra tem sido deslocada para uma outra dimensão, a dimensão do ato. O que isso significa? Trata-se de respeitar as palavras em sua força de produção e não enquanto apenas um produto da interação do intelecto com as coisas. Isso traz implicações em diversas questões pois, afinal, dizer é fazer.

Pedir, constatar, nomear, descrever, classificar e interromper são exemplos de atos operados na linguagem, realizados na fala. Não é “por meio” da linguagem, pois ela deixa de ser mero “meio” para ser operadora na produção de realidades. Sendo assim, anunciar o início de um evento qualquer não é mera descrição, mas trata-se de agir no mundo iniciando o evento simultânea e instantaneamente com o anúncio. A bíblia tem um exemplo clássico: “Faça-se a luz!”. Não é um dito simplesmente descritivo, mas (cri)ativo e sua criação é concomitante ao dito.

Quando os apaixonados estão tomados pelo amor e acreditam em sua eternidade, professam que jamais abandonarão a pessoa amada. Com isso, realizam um ato, que seria uma promessa e, assim, comprometem-se com seu dito e com o outro. Há, neste caso, o ato de prometer.

Ou seja, as palavras possuem força de afetação ao serem protagonistas dos mais diversos atos. A importância desta dimensão da linguagem atinge a esfera ética e política, por exemplo. Ética considerando que há uma implicação e compromisso com os atos e política por serem modos de afetação das realidades. Vale ressaltar que elas também são capazes de produzir os efeitos mais inesperados, testemunhando o quanto pouco somos senhores de nossos destinos.

Por fim, esta foi uma pequena introdução no tema do poder das palavras. Ao leitor, há um exercício simples para ter a dimensão disso, basta inclinar-se sobre seu nome próprio e a importância do nome em sua história de vida. O sentido, origem, o desejo envolvido no ato da nomeação, as alusões que ele pode fazer, as marcas que ele carrega, etc. É evidente que nem tudo isso será possível descobrir pois, afinal, a linguagem não existe simplesmente para ser descoberta, o que faz dela um órgão fundamental de nosso corpo e que nenhuma ciência ou filosofia ainda foi capaz de esgotar.

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