O que podem as palavras?

As palavras são verdadeiras parasitas, se infiltrando em quase todas as nossas experiências. Ou, ainda, são as próprias experiências. Imagine uma pessoa apaixonada. Tudo é capaz de lembrar a pessoa amada e seus pensamentos não se ocupam de outra coisa senão da mesma coisa. Essa coisa pela qual o amor gira em volta, faz contorno, encontra e desencontra, atribuiu as melhores e piores qualidades. Como se fosse algo digno de estar em primeiro lugar, antes mesmo de si. Aliás, quem ama corre o risco de se apagar.

Supondo que o amante – ou amador, se preferirem – queira abordar sua preciosa companhia com palavras de amor, irão lhe sobrar palavras… ao mesmo tempo em que nenhuma será suficiente. O amor é essa coisa tão estranha e tão íntima. Tão fora e tão dentro. As palavras permanecerão como fonte, amparo e desamparo diante desta experiência em que tudo pode ser dito e que nenhum dito é capaz de tudo dizer. As palavras são parasitas que surgem quando menos esperamos, como quando o apaixonado é tomado pela lembrança de uma canção que descreve sua pobre condição.

As palavras são parasitas, pois não apenas são verdadeiras criaturas criadoras como participam de grandes transformações. Estão presentes nas inúmeras mudanças realizadas em nosso cotidiano. Dão sentido e, paradoxalmente, testemunham que este tem um limite. Correm o risco de tender ao infinito. Ao falarmos nossa língua somos capazes de criar a própria língua pois, afinal, ela é capaz de ser e deixar de ser a cada verso. Versa para o inesperado, o inusitado, versa para a certeza ou abre a dúvida. As palavras comem, vomitam e defecam. Ao mesmo tempo são capazes de lustrar, encantar, acariciar e completar. Mentem e confessam. São capazes de açoitar e de curar.

O que sai da boca do apaixonado realiza-se instantaneamente no dito. Em outras palavras, ama ao dizer. Odeia ao amar. Odeia dizer. Odeia ao dizer. Ama odiar. Odeia odiar. Odeia amar. Ama ao odiar. Ama amar o amor. Ama odiar o ódio. Odeia odiar o amor. Odeia amar o ódio. Odeia odiar o ódio.

Vale lembrar que as palavras também podem ser vazias. Elas podem ser tudo que elas podem ser, mesmo que nunca sejam uma só e mesma coisa, mesmo que nunca sejam o suficiente. São suicidas. São criadoras. Criam sua própria vida. Criam seu além e seu aquém. Contemplam tudo que podem contemplar, inclusive elas mesmas. Se unem e se abandonam na mesma velocidade. Sabem ser belas e horrendas.

Com isso aprendemos com elas que não dá para menosprezá-las. Nem fugir delas. Abraçá-las?Somos capazes de cada um criar sua própria língua, uma nova língua, uma nova vida. A língua é viva. Abandoná-las? Impossível?

Afinal, para insultar uma palavra,

só outra palavra.

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2 comentários sobre “O que podem as palavras?

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