Considerações sobre (não) saber escutar: três renúncias

saber escutarSaber escutar é um exercício que está na contramão de nossas tendências egoístas. Vivemos em um mundo em que poucos sabem ou aceitam perder, mas para escutar devemos fazer, no mínimo, três renúncias:
1) Renunciar a si mesmo. Sendo assim, para escutar é preciso abrir mão e dar uma trégua de seus valores, julgamentos, preconceitos, verdades e opiniões. Evita-se, assim, dois monólogos.
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2) Renunciar ao poder. Não basta ouvir o outro para, no final das contas, tentar criar uma hierarquia baseada em certo ou errado, direito ou torto, ou usar a abertura que se fez para tentar manipulações. É preciso humildade sincera e suspender qualquer tentativa de “dar lições” ao final da conversa.
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3) Renunciar ao medo. Buscar suspender o medo (ou pavor) do que se ouve ao dar oportunidade de alguém se expressar é fundamental. Por vezes, antecipamos a fala do outro por temor de ouvir o que não queremos saber, de ver o que não aceitamos enxergar.
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Saber escutar não é simples ou fácil, e exige demais de um bom ouvinte. Demanda muito esforço, prática e atenção. Basta aprender com as crianças.
Me. Alexandre Vieira Brito
Psicologo clínico / palestrante
CRP 16/2808
(27) 999431968
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Os psicólogos podem atender seus amigos ou familiares?

psicologoO atendimento psicológico clínico distingue-se da grande maioria das demais profissões por envolver intimidades, manejo dos afetos, dos segredos e de verdades. O fundamental é o laço que se estabelece entre profissional e paciente, que não pode se confundir com amizade ou função familiar (como tutela, apadrinhamento, maternidade, paternidade, etc.).
Do mesmo modo que é vetado ao profissional o envolvimento permitido em ambiente familiar e entre amigos, é praticamente impossível um familiar atuar como psicólogo em sua própria família. São posições muito distintas.
Além disso, durante um tratamento psicológico pode ser necessário convidar os familiares de seu paciente (principalmente no caso de crianças) e o lugar que o sujeito ocupa em diferentes espaços, e a intervenção do psicólogo deve ser sem impedimentos, seja nas pontuações que possam incomodar ou confortar.
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Cautela: o profissional de psicologia não é um aconselhador ou alguém que pode resolver sofrimento ou dificuldades com alguns minutos de conversa. São anos de estudo e experiência para realizar as intervenções necessárias em condições adequadas. Podemos usar a imaginação e comparar esse caso com alguém que está com fortes dores de dente e pede que um primo dentista arranque-lhe os dentes na mesa de jantar, numa tarde de domingo, para aliviar logo sua tortura. Negar o atendimento pode ser sinônimo de prudência e não de incompetência.
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O profissional da psicologia possui capacidade para avaliar suas escolhas a partir da regulamentação de sua profissão, e atender seus familiares ou amigos pode causar prejuízos ao tratamento justamente por ser parte daquilo que lhe foi solicitado tratar.
Afinal, nunca sabemos o alcance de nossas influências entre amigos e familiares e o profissional não está imune a isso. Importante ressaltar que assim preservamos os vínculos sem prejuízos maiores, além de evitarmos alguns riscos como as cobranças, “misturar as coisas” ou no desenvolvimento de paranoias (pode surgir a ideia de que após o início do tratamento “todos estão falando de mim e sabem o que eu disse na sessão”). Além das possíveis dificuldades em realizar os contratos e cobranças financeiras, culminando em uma “corda bamba”.

cordaSão alguns exemplos, pois as contraindicações são extensas, e maiores dúvidas deixe nos comentários.

Por fim, ressalto que o profissional pode dar dicas para amigos e familiares diante de demandas e percepções, realizar indicações, se aproximar para encaminhá-los aos serviços adequados, esclarecer dúvidas, sem se envolver com eles de outra forma senão como e apenas um bom amigo ou familiar. E isso pode ser um alívio para todos…
Me. Alexandre Vieira Brito
Psicologo clínico / palestrante
CRP 16/2808
(27) 999431968

Desafio do “dia inútil… inútil por um dia”! 

inútilDesafio a todos um dia de completa improdutividade. Com zero resultados e nenhuma meta a ser atingida. Um dia pra não fazer nada. Um dia inútil! Simplesmente inútil! Desafio um tempo ocioso, uma manhã despretensiosa, uma tarde desacelerada e uma noite desapegada. Que seja um dia de respiração branda e de lembranças razoáveis. Um dia que mal realiza as necessidades básicas. Um dia sem exigências de nenhuma espécie. Totalmente desinteressado. Um dia pra não resolver absolutamente nada e desligado de qualquer pendência. Um dia.. Só um dia! Completamente despreocupado com o simples e com o complexo. Um dia em que o mundo vai dar uma trégua de 24h. Dificilmente voltaremos da mesma maneira. Desafio um dia para pensar em nada. Ou nada pensar? Mas, para muitos, isso tudo é inconcebível. A grande maioria das pessoas vai resistir e dizer o quanto isso é impensável, irrealizável. Sentem que a vida é implacável e exigente demais com elas. Mas, insisto, vale o exercício e o esforço. Um dia em que você deixa de ser só mais uma peça nessa engrenagem que não pára de funcionar 24h por dia para ser um “nada demais”, amando o simples e o ocioso. Pelo menos por apenas um dia…

Alexandre V. Brito

Compreenda melhor a tristeza e suas variações (a dor, o ódio, a melancolia e a inveja)

tristezaOs afetos são o resultado dos encontros que vivenciamos ininterruptamente, seja com corpos, pessoas, palavras, pensamentos, dentre tantas possibilidades. Basta estar vivo para encontrar-se submetido aos afetos e suas transformações.
Dentre elas há o aumento e a diminuição na capacidade de agir. A tristeza seria o último caso, correspondendo à perda de potência de existir.
Para compreende-la, vamos nos servir de uma “fórmula” que vai contribuir para entendermos algumas variações deste afeto. Mas, afinal, o que é a tristeza?
Testemunhamos este afeto quando um encontro causa a diminuição de nossa potência. Ou seja, é justamente na passagem de um estado de maior potência para o de menor potência de agir que definimos a tristeza.
A tristeza nos enfraquece e é o indício de um encontro ruim, reduzindo a capacidade de nosso corpo de afetar e ser afetado. Uma má digestão, um envenenamento e uma notícia ruim são exemplos simples de causas da tristeza a partir de um encontro. Para muita gente, a segunda-feira é um exemplo que dispensa explicações, entristecendo desde o domingo.
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Para aplicarmos a fórmula que nos conduzirá a compreensão das afecções à base de tristeza, vamos relacioná-la sempre com outro elemento. Dentre elas encontramos a dor, ódio, melancolia, inveja, medo, desespero, antipatia, dentre outras.
No caso da dor, temos a fórmula “tristeza + parte do corpo”.
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A melancolia uma “tristeza + todo o corpo”, ou dor da existência.

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Já o ódio seria a “tristeza + causa da tristeza”. Atenção: o ódio pode nos conduzir ao erro, pois podemos odiar acreditando que sabemos quem nos entristece, mas podemos descobrir que a causa era outra. Esta característica é presente em todos os afetos enquanto paixões, e podem nos conduzir ao equívoco.
Por fim, todas as afecções cabem nesta fórmula e elas podem se encadear, tornando nossa potência cada vez menor. A inveja, por exemplo, é a “tristeza + ódio da alegria alheia”. Ou seja, a inveja soma-se ao ódio, ambas originadas na tristeza.
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Uma tristeza nos conduz a outras tristezas e pode provocar ou ser provocada pela tristeza alheia. É um afeto que requer atenção e cuidados, sendo fundamental acolher uma raiva, medo ou melancolia que têm, como ingrediente, uma profunda tristeza.
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Se curtiu, compartilhe! O conhecimento sobre as tristezas pode ser importante para muita gente.
Me. Alexandre V. Brito
Psicólogo clínico / Palestrante
CRP 16/2808
(27) 999431968

Simpatia, empatia e compaixão: algumas semelhanças, diferenças e suas consequencias

Empatia simpatia compaixãoQuando nos deparamos com alguém, em determinada situação, podemos nos afetar de diversos modos, alterando nossos sentidos e percepções. Neste caso, o nosso corpo é o “suporte” para os encontros, e a palavra paixão (do grego pathe) tem origem justamente em sentir, suportar. Em latim, passio denota um certo sofrimento, mas suas variações nem sempre o incluem.
A simpatia, empatia e a compaixão não coincidem, mas são algumas das variações da paixão, apesar de cada uma apresentar um modo particular de expressão.
No caso da simpatia (sympatheia) há a conjunção de syn (junto) + phatos (paixão). Há uma comunhão entre os sentimentos ou, em linguagem popular, é quando o “santo bateu”. Neste caso, as pessoas apresentam um afeto que independe das condições de vida da outra.
No entanto, com a empatia (empatheia) há uma modificação de si no sentido de se imaginar no lugar do outro. Experimentar a realidade alheia, por meio do testemunho e da imaginação, é o cerne da empatia, seja quando o outro está alegre ou triste.
Por fim, a compaixão (do latim compassio) ao pé da letra significa “sentir piedade” e tem como requisito a dor ou sofrimento alheio. Para haver compaixão, portanto, uma das partes sofre.
No baile dos afetos eles podem se transformar uns nos outros e levar a outras metamorfoses, reações e mesmo tomadas de atitudes. Um profissional que experimenta a compaixão em sua atuação coloca-se numa relação vertical (um sofre e o outro não) correndo o risco de querer “salvar” seu público com recursos pessoais e acabar falindo financeira e psicologicamente, por exemplo. Ou agir com empatia e transformar esse afeto em combustível para lutar pela causa alheia. Caso seja tomado pela simpatia, desenvolve uma relação horizontal. Cada afeto inclui consequencias inerentes à sua natureza.
Foi simpático (a) ao texto escrito apaixonadamente? Compartilhe empaticamente!
Ms. Alexandre V. Brito
Psicólogo clínico / Palestrante
CRP 16/2808
(27) 999431968

Afinal, o que é alienação parental?

alienação parentalÉ comum em situação de separação/divorcio conflituosos e ocorre quando uma criança é provocada a agir e alimentar afetos/pensamentos hostis contra um dos membros de sua própria família. Quem o faz geralmente é um dos responsáveis pela criança, causando grandes prejuízos psicológicos e desgastando sua saúde e relações afetivas com seus familiares. A alienação parental é uma violação do direito, ou seja, um crime.
Para entender melhor, recomendo a leitura da lei nº 12.318, de 26 de agosto de 2010, onde encontramos as formas da alienação parental.
Na dimensão psicológica é fundamental que esta situação seja resolvida o quanto antes e da forma mais saudável possível para que a criança cresça de forma plena. É de grande agressividade privar e/ou tentar gerar ódio em uma criança justamente contra quem ela ama ou convive. Os adultos geralmente não sabem lidar com seus próprios afetos ou com os problemas dos “mundos dos adultos” e acabam envolvendo a criança, causando-lhe danos que podem ser duradouros.
Geralmente isso ocorre quando um adulto quer fazer da criança sua extensão para que ela pense e sinta como ele, podendo destruir parte da infância na intenção de “atingir” o outro membro da família/responsável. É fundamental que este quadro seja detectado por familiares, vizinhos e/ou profissionais e providências sejam tomadas o quanto antes para preservar o “mundo da criança” (recheado de brincadeiras, criatividade, liberdade de expressão, amor sincero, etc.) e separá-lo imediatamente do “mundo dos adultos” (divórcio, separação, rancor, vingança, etc.). Acordos são fundamentais nestes casos. Vale lembrar que acordo significa “corações unidos”. Nem que seja em nome da criança, sem mais nem menos.

Compartilhe este texto, muita gente desconhece a alienação parental e pode estar passando por isso sem saber.

Alexandre V. Brito
Psicólogo clínico / Palestrante
CRP 16/2808
(27) 999431968

Linhas de fuga e o corpo humano: a boca e o olho.

linha de fugaA boca é feita pra comer. Certo? Nem tanto! A boca beija, se queixa, se esbalda em prazer com alimentos e com tantas outras coisas que sequer engole. Na boca vai batom, protetor, sem falar nas cores das borrachinhas colocadas nos aparelhos dentários. A boca fala, a boca cala, a boca assobia, a boca “faz língua”. A boca canta e mastiga chiclete. A boca lambe o sorvete e a orelha, o pescoço e os dedos cobertos de brigadeiro de panela. E ela ainda é capaz de lamber tudo isso ao mesmo tempo. A boca grita e imita outras bocas. A boca sussurra, fuma, chupa o dedo, cerra os dentes, e lambe os próprios beiços. A boca é capaz de tantas coisas. Ela pode ser indomável.
E os olhos, servem para enxergar? Bom… os olhos podem se fingir de cegos ou ver demais. Os olhos podem viajar, se fixar ou se dispersar. Nele vai o delineador, a sombra e os cílios postiços. Nem por isso são fictícios. Os olhos enxergam para além do que está a sua frente e por vezes vestem lentes de contato e mudam de cor. Os olhos se assustam e também piscam para outros olhos. O olho julga e franze a testa. O olhos se apavoram. Os olhos se coçam. Os olhos seduzem, conduzem e podem te engolir. Com um olhar fulminante, podem lhe inibir.
O olho olha pra boca. A boca menda beijo pro olho. O olho pisca. A boca sorri. O olho se interessa. A boca saliva e se apressa. O olho está cego de paixão, deixou de ver e a boca…

só quer morder.

 

Alexandre V. Brito
Psicólogo clínico / Palestrante
CRP 16/2808
(27) 999431968