A vida e a necessidade de novos fôlegos

Pensamento ser fôlegoExistem momentos em que precisamos reiniciar. Reiniciar um notebook, um smartphone, uma frase ou uma forma de amar. Reiniciar a si mesmo, nossa bússola, nosso próprio radar. Reiniciar o trabalho, a saúde, o sexo, o que parece não haver mais saída e as indagações sobre a vida. Sabe quando você reinicia seu aparelho? Ou quando as coisas travam e é preciso começar de novo, testemunhando nossas mortalidades, em que uma surpresa e um novo suspiro nos oferecesse a beleza de suas novidades? Precisamos de um novo fôlego! Mas, afinal, o que isso significa?

Seria voltar atrás ou dar um passo adiante? Talvez contar com a sorte, com as escolhas ou com os anjos? Seria uma liberação de espaços e a produção de novos arranjos? Trata-se de uma nova direção, uma reparação, uma construção, uma condução ou se dá a partir de uma sedução? Reiniciar pode ser tão fundamental que se um dia resistirmos exaustivamente contra sua ocorrência simplesmente nos desligaríamos, com risco de se apagar e nunca mais voltar. É preciso fôlego para, instantaneamente, ser e deixar de ser o que somos. Interrupções, descontinuidades, novidades, interrupções…

Quando uma parte de nós trava logo percebemos que uma paralisação, obviamente, é o oposto de uma continuidade. É um assassinato da temporalidade. Por vezes perde-se a batalha, mas isso não significa o fim da guerra. Mas uma parada do pensamento pode ser tão fatal quanto uma parada cardíaca. Quem morre é o ser… Deixar de pensar é deixar de ser.  É desaparecer! Tornar-se invisível.  É preciso extrair do riso alguma seriedade e tornar algumas seriedades em algo responsavelmente risível.

Precisamos encontrar novos ares para o pensamento, para o corpo, para o amor, para a moralidade, para a gestão pública, para as instituições, para a música e para o trabalho nos tempos atuais. É preciso novo fôlego para viver as diferenças e os iguais. A exaustão pode ser um sinal da falta de precaução, de respeito, negação da invenção. Talvez sejam necessárias novas cautelas e menos tutelas. Uma vida em que o outro não é apenas uma ameaça, mas a possibilidade de uma graça. Uma vida em que a gente se canse de ser o que somos e possamos ser um pouco diferentes. Menos resignados e mais agentes. Ou até mesmo que fabriquemos pensamentos que sustentem novos modos de ser e agir. Ou mesmo pensamentos que nos tire de algum juízo e nos ofereça um lugar ao sol sem o risco de nos queimarmos e padecermos em nosso próprio paraíso.

Um lugar onde as pessoas não morram por pensar, existir, desejar…

Pela afirmação de uma vida inútil

morte ou liberdadeLogo em nossos primeiros anos de vida temos lições tão importantes quanto arriscadas que são transmitidas pelos pais ou que a própria vida se encarrega de providenciar. Aprendemos a renunciar, por inúmeras vezes, de nós mesmos. E, assim, aprendemos que na maioria das vezes o que importa não é o que se faz, mas o que se deixou de fazer. O importante não é o movimento, mas a estabilidade. Muita gente já atingiu a glorificação a partir de seus sacrifícios. Além disso, uma educação em séries e em disciplinas que insistem em não copular uma com as outras acabam por protagonizar o assassinato de milhares de neurônios infantis, pois os neurônios são amantes de conexão e não de segregação.

A vida acaba sendo vivida em função de uma renúncia, de um enquadramento, em ajustamentos que não permitem espaço pra novos pensamentos. Quando não há a singularidade do desejo, nos angustiamos diante da inquietação de qual a vida que vale a pena ser vivida, pois vivemos numa civilização do passo-a-passo, do transcendente, da rotina e do sufocamento de uma vida que acaba implorando por novos fôlegos.

Aliás, precisamos de novos fôlegos com urgência, pois na maioria das emergências recorremos ao outro. Muitas vezes o outro nos é suficiente, pois apenas nos identificamos e nos unimos a ele na tragédia cotidiana. Porém, é preciso dar um passo para além da lamentação e do fracasso que geralmente atribuímos às forças que vêm de fora e nos constrangem no dia-a-dia. Uma vida que se mantém na espera é casta e a vida na escravidão pode ser até mesmo cômoda. No entanto, sair do cômodo não é fácil, nossa sociedade oferece  inúmeras formulas para se viver a vida a partir de referências que surgem para além de nós mesmos e, assim, entregamos parte do controle de nossas ações ao outro que não nos reconhece. Crescer dói, pois é assumir a responsabilidade de si para consigo. É saber ser solitário, o que não significa se isolar das pessoas ou não poder contar com elas. É um esforço para que o dizer seja dito e ser independente da comparação e da expectativa do outro.

O passo-a-passo linear da vida é oferecido desde a infância, onde há uma chacina neuronal e cognitiva, pois tudo se dá em função do que não é, mas do que pode vir a ser um dia, de uma promessa ou de uma esperança que por vezes é ameaçadora. A creche prepara para o ensino fundamental, o fundamental para o médio, o médio para a faculdade, a faculdade para o mercado, o mercado para a aposentadoria, a aposentadoria para a morte. Ou seja, não se vive em função do que se é, mas por uma finalidade: a morte. O mesmo ocorre com o corredor que não corre pela corrida, mas corre pela saúde ao se preocupar com seu futuro, corre em função de algo fora da corrida. Há o estudante que estuda para algo fora do estudo. E o sujeito que não lê pela leitura, mas para algo fora da leitura, perdendo a oportunidade de se afetar com as letras do livro. Enfim, fim! Vivemos para os fins, e isso os dias da semana são testemunhas, em que esperamos o fim do dia, da semana, do mês, do ano, …, da vida! Tragicamente, também aprendemos a amar o que está fora. Fora do trabalho (ah, as férias!), fora da semana (ah, o final de semana!), fora da lei (ah, o jeitinho!), fora da vida (ah, o paraíso!), etc.

Por fim, precisamos inventar novos fôlegos, pois entregamos a vida na mão alheia e terceirizamos muito de nossas responsabilidades aos médicos, nutricionistas, professores, gestores, e isso pode ser muito arriscado. Por vezes, um suicídio! Terceirizamos a educação das crianças, a saúde, e colocamos a vida na mão de diversas autoridades estranhas à nossa história. Cientistas são, de fato, fundamentais… mas não é disso que se trata!

Não se trata de ignorar o conhecimento, mas ser autor da própria vida realizando conexões que só um pensamento é capaz. Pensar é não aceitar as fórmulas e manuais de existência como inquestionáveis, mesmo quando viáveis. Pensar é sentir dor e assim se afetar, causando algum movimento inédito. As causas do pensamento são inúmeras, e quem sabe esse texto não seja um ingrediente ou uma matéria-prima que nos desloque e que possa provocá-lo. É preciso correr pela corrida, trabalhar pelo trabalho, beber pela bebida, o ócio pelo direito ao ócio, amar pelo amor, ler pela aventura da leitura em si. Isso não torna essas ações sem histórias ou que sejamos menos responsáveis por elas. Mas traz novos fôlegos em uma vida que vive por ela mesma, que afirma e valoriza o inútil, e não pelo que há de estranho a nós mesmos ou de uma adaptação corrosiva. O valor da utilidade é transformada ao viver o amor sem uma finalidade, trabalhar sem as esperanças da vaidade, agir apenas em função de uma virtualidade. É saber ser tão importante quanto dispensável. É afirmar uma vida que saiba combater as forças constrangedoras, os ideais transcendentais, estranhar o valor de determinados valores e se incomodar  com uma vida que lhe torne útil…

…como um parafuso.

Por uma vida que não seja resíduo (Considerações sobre a tragédia de Mariana em MG)

dinheiro sujo SamarcoO dia 05 de novembro foi testemunha de um verdadeiro progresso – sem ordem – em solo brasileiro. Um avanço letal que moveu massas, vidas e histórias. Assistimos uma verdadeira avalanche de ganância e desrespeito acontecendo nas terras tupiniquins, e que acabou por cobrir toda decência e amor que poderia haver em seu caminho. Podemos no ocupar no antes e depois do rompimento da ética, mas é necessário, antes de mais nada, precisarmos se ela realmente era presente. Para isso, vamos pensar em valores, pois isso pode significar muito na hora de avaliarmos a vida e entendermos alguns dos cálculos fatais que são realizados em níveis institucionais.

Vamos calcular a vida em termos cifráveis, ou seja, vamos pressupor de que uma vida tem algum – ou nenhum – valor. Para isso, é preciso uma referência que vai no oferecer uma justa medida para tal avaliação. Vale ressaltar o seguinte: este modo de cálculo é a base de um mercado com fins lucrativos. O referencial que nos serviremos, portanto, é o dinheiro ou tudo que pode ser convertido nele.

Quanto vale um litro de água? Quanto vale uma casa nova? Quanto vale seu livro favorito? Quanto pagaria para trazer alguém de volta para perto de ti? Quanto pagaria para ser o que sempre sonhou ser? Dentre tantas perguntas, vamos percebendo que aos poucos nos aproximamos do nosso próprio valor, o que nos deixa numa perigosa situação: qual nosso preço? Um risco que todos podemos correr e, quando menos perceber, se corromper.

A Samarco lucrou 2,8 bilhões de reais ao fim de 2014, um valor que compraria a mãe de muita gente. E, de fato, seduziu e levou a alma de algumas pessoas. Levou, mas não lavou! Ou seja, neste cálculo nós podemos mensurar a vida em termos cifráveis, onde uma anula a outra. Deixar o barro escorrer seria melhor do que pensar em termos de comunidade? Um investimento em segurança e no caráter do ser humano seria mais caro e trabalhoso do que bancar uma multa de aproximadamente um bilhão (o que, de fato, manteria a empresa no lucro) cobrada pelos próprios beneficiários da Samarco? Sem contar com as cobranças abusivas na venda de água  em terras afetadas pela tragédia ambiental.

O que é fundamental serve para manutenção do que é essencial. O que é importante serve para nos guiar para que possamos ser lembrados pelo que somos. Parece que algo como o dinheiro, que seria apenas o meio do caminho, tornou-se o essencial no lugar de ser apenas fundamental. Mas além do dinheiro há outros fatores envolvidos, como é o caso da tirania de um poder sem justiça. Seria o poder de destruir? De ter a decisão sobre a vida alheia em vossas mãos?

O mercado cifra a vida em termos de lucro, mas a responsabilidade não está no mercado. O capitalismo cifra os corpos, mas a responsabilidade não está no capitalismo. Precisamos mudar de cifra e avaliar a vida que vale a pena ser vivida a partir de outro lugar. De um lugar em que possamos conviver sem a necessidade de se matar. Onde a liberdade de um significa a liberdade do outro.

A responsabilidade está em nós mesmos e em todo lugar, desde a problematização de pequenos comentários preconceituosos que passam despercebidos em nossa linguagem cotidiana, ao estranhamento de avalanches absurdas que acabam cobrindo a vida com uma lama envenenada de ódio, vingança e ganância. Além disso é preciso cautela pra não deixarmos de prestar atenção na inversão alguns valores, como no caso da acusação de crime ambiental para os que jogam a “lama no ventilador”. Corrupção é uma subversão que faz com que o mais fraco seja apresentado enquanto protagonista das violências sociais pela qual é submetido.

Qual preço que pagamos? Com quais forças que lutamos? A ética é, em suas diversas formas, clamada desde a antiguidade para que as forças justas possam triunfar sempre que emerjam as forças tirânicas, num embate eterno. Seja mudando as formas do bem ou do mal, do certo e do errado, do agressor e do agredido, vale ressaltar um importante alerta de Pascal: “A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica”.

Desejo a todos uma vida que não seja tratada como resíduo.

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte Final – Freud e a Psicanálise)

forrest gump ética psicanáliseO pensamento moral na história da filosofia e da teologia possui a razão como fundamental para o exercício da ética na relação com o outro e na produção de si. A força da razão é a chave mestra para exercer a justiça, as virtudes e a sofisticação da vida coletiva e individual. Apenas por meio dela alcançaríamos a felicidade, a beatitude, o bem comum ou a salvação – dependendo da perspectiva adotada para avaliar a vida a ser vivida.

Sendo assim, a política e a ética estariam em consonância com os atributos da razão e deveriam ser regidos por sua influência, mesmo que as diversas teorias não concordem entre si nas relações que a razão produz com corpo e com o saber. No entanto, alguns filósofos apontam que ela é insuficiente para ser incluída na milenar discussão moral ao afirmarem que a razão diz respeito ao conhecimento e não aos dilemas do homem frente ao conflito com o outro.

Seria necessário, portanto, pensar em outra força capaz de orientar o ser humano em sua jornada terrestre justamente por não estar imune ao acaso dos encontros. Seja com uma palavra, um som, um afeto, uma coletividade, há que se pensar uma intensidade que ultrapasse a razão e seja capaz de romper com a tradição racional moralizante. Trata-se de uma intensidade considerando que, antes de mais nada, ela é informe e sem modelo, sem uma estrutura básica e elementar, mas pura possibilidade. Ou seja, um pensamento que pensa sem consentimento de uma instância racional, sem solicitar permissão para uma consciência, sem precisar de alvará para se fazer livre: eis o inconsciente freudiano.

Apesar de Freud ter sucessores generosos ou rigorosos com sua invenção, como Lacan e Deleuze, sua originalidade não se perde frente aos belíssimos acréscimos de seus geniais comentadores. Freud, portanto, não usa a razão para oferecer uma nova perspectiva ética, mas apresenta uma nova concepção do ser e assim operando consequências irreparáveis para o pensamento filosófico, psicológico e médico. Ou seja, a razão para Sigmund Freud pode ser antes de mais nada um empecilho para a criação, uma forma de ignorância diante de uma verdade ou para se deslocar (de um grau de maior para menor importância) os grandes problemas da humanidade. A razão é deslocada do centro essencial da vida para um aspecto fundamental de apenas alguns processos sociais e psicológicos. Qual seria, portanto, a ética na psicanálise?

Freud e Lacan tomam emprestado uma ideia encontrada, de forma similar, em Nietzsche e Espinoza, em que o essencial da vida humana (o que nos distingue dos outros animais) é o desejo. Apesar de Nietzsche também perceber que há algo de estranho – e digo estranho em relação à lógica racional – em nós e que nos habita involuntariamente, Freud situa este estranho como algo de nossa responsabilidade e que ultrapassa as capacidades limitadas da consciência. Afinal, a consciência pode dar atenção apenas à poucas percepções simultâneas. A originalidade freudiana reside na afirmação de um desejo inconsciente: eis a ruptura com todo pensamento antecessor e toda a estrutura que o limitava. A razão tornou-se insuficiente para tratar de nossos padecimentos.

A ética reside em manter uma relação honesta com a tensão entre o que se quer e o que se deseja, entre o gozar e simbolizar, entre-ter e ser, entre ser consumido e consumir, unir  e dissociar, entre o saber e a verdade de si. Vale lembrar que a tragédia reside na impossibilidade de haver garantias de um meio termo ou de regularidades. Sendo assim, a psicanálise não admite uma dualidade (corpo e mente, dentro e fora, imanente e transcendente, céu e terra, etc.) para se pensar o sujeito, mas concebido a partir de uma cópula entre afetos e palavras – evitando o risco de reduzi-los a sentimentos (sente e mente) ou operações lógicas e gramaticais. A relação com o desejo é inaugura-dor.

Por fim, ressalto que o inconsciente não seria um lugar obscuro como um depósito, mas está mais próximo de uma memória viva e potencialmente acesa. Não seria um risco para nossa integridade, felicidade ou para nossa saúde, como se fosse uma zona de perigo a ser evitada, mas é justamente encarando seus horrores e seus amores de frente que é possível viver uma vida a favor da própria saúde e do cuidado ao outro. Não é moralidade, mas intensidade: é ética. O inconsciente funciona mesmo quando dormimos, pois estamos e nos encontramos em nossos sonhos…

…mais do que poderíamos supor…

…por vezes, aparecemos mais em nossos sonhos do que os esforços que fazemos para nos manter apagados quando estamos despertos ao longo do dia.

Aliás, não estamos em nossos sonhos…

Somos!

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte VI – Espinosa e Nietzsche)

Spinoza NietzscheDiante de tantas referências quanto à ética e moralidade, apresentadas nos textos anteriores, pudemos perceber que a questão fundamental “Qual vida vale a pena ser vivida?” pode ser respondida por diversos modos. Seja visando uma felicidade que esteja aliada à moralidade (Aristóteles) ou mesmo independente desta – em que ser bom pode significar padecer (teológica). Sendo assim, os diferentes exercícios da arte da convivência incluem valores distintos. No entanto, se não partirmos de um a priori das virtudes e dos valores, ou de que somos edificados por meio delas, estaríamos realizando uma ruptura com a tradição do pensamento que eleva os valores a uma altura, por vezes, maiores que a própria vida, em que os valores alcançariam um mundo fora do mundo, uma vida fora da vida, uma existência fora da existência. Neste caso, destacamos dois artistas responsáveis por essa obra crítica: Espinosa e, em seguida, Nietzsche.

A pergunta que poderíamos partir como princípio para esta perspectiva que rompe com a tradição moral seria “Qual o valor do valor?”. Espinosa percebe que o homem, em sua finitude e diante do sofrimento inerente à sua natureza, ergue construções imaginárias para responder às impressões e perturbações que vive, temporalmente, ao longo da vida. Sendo assim, sem saber conhecer adequadamente a si mesmo e, consequentemente permanecer ignorante sobre o mundo e a vida, as pessoas terminariam por viver uma vida marcada pela servidão afetiva, seja por medo e esperança, e pela necessidade da fé. Além disso, sem conhecer a causa das coisas, permaneceriam apenas nas ilusões dos efeitos. A ação, em Espinosa, não tem a referência kantiana (até mesmo porque Kant vem ao mundo apenas posteriormente), nem mesmo cartesiana, aristotélica ou religiosa. Por curiosidade, após sua morte, sua obra “Ética” ficou entre os livros proibidos pela igreja e, ainda em vida, foi excomungado da comunidade judaica.

O pensamento de Espinosa resistiu a todas as violências de sua época, persistindo até os dias atuais de forma marginal. O que ele tanto enfatizava era que somos finitos, mas podemos ser criadores e não apenas criaturas. A referência inicial de cada um de nós seria o corpo. No entanto, simplesmente a partir dele estaríamos fadados às variações dos afetos, levando-nos da alegria à tristeza (e vice-versa) em grande velocidade, comprometendo nossa percepção da vida e de nossa finitude, fundamentais para uma proposta ética. A mente, paralela ao corpo, tem a potência da razão para encontrar o conhecimento do criador e de suas criações sem o equivoco das paixões, mas sem negar o corpo. O corpo é fonte de tudo, mas nesta perspectiva deve ser superado sem ser, jamais, negado. Pelo contrário, afirma que sem corpo não há mente, em que se elavam e padecem juntos, na mesma medida.

A beatitude, a energia vital (conatus) seria alcançada adequadamente, portanto, num exercício da razão, em que o ser humano é criatura em relação – pois diminui e aumenta sua energia vital constantemente – mas que tem a capacidade de alcançar uma potência em si mesmo quando busca esgotar sua razão para conhecer a si. Assim, ter como postura ética a si mesmo em seu saber sobre a vida, o homem deixa de ser submetido simplesmente ao mundo exterior a ele e que o constrange o tempo todo e passa ao mundo interior, tornando-se seu próprio criador. Um criador sem transcender, uma atividade que não recorre a uma entidade fora de si, da vida ou do mundo, mas numa relação consigo mesmo buscando, no outro, a mesma potência. As referências também se encontram nos afetos, da vergonha à alegria, pautadas na vida mundana.

O homem superaria sua tradição, superaria o próprio homem, como diria Nietzsche. O corpo não padece a mente, mas a engrandece. A mente também seria capaz de elevar a potência do corpo simplesmente com uma referência nela mesma, libertando-se. Ao ler Espinosa, Nietzsche encontra um antecessor. Ele buscava martelar os valores, minar as referências para a vida que eram encontradas fora da vida. Ambos encontravam a referência para o homem no próprio homem. A essência humana em Espinoza era o desejo (ideia retomada por Lacan, na psicanálise) e a ética nietzschiana era ancorada justamente nisso: desejar viver de maneira que sua ação seja repetida eternamente? Este eterno retorno é um exercício que requer muita responsabilidade. Neste caso, eternidade é uma referência mundana e trágica para se avaliar a vida, e não uma eternidade do espírito que se descolaria do corpo. Eternidade no sentido da repetição, e de que o tempo é nosso principal inimigo e, na mesma medida, aliado. Combate, assim, os que combatem a vida negando-a como ela é, e os que definem uma referência fora da vida com características imutáveis e a-históricas, como é o caso dos ideais, dos valores, máximas e mandamentos.

Pensar nossas ações por meio desta perspectiva provoca, necessariamente, uma transformação. Ter a vida e a si mesmo como referência ética é um desafio assustador e transformador, pois se sustenta sem a necessidade de ser recorrer ao imortal ou ao pensamento moral, e afirma que os desejos, as dores e os amores são positividades que se repetirão eternamente em nós, até que a morte nos separe.

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte V – A fé, a esperança e o amor ágape)

virtudes cristas fe amor esperançaO ser humano não possui um só caminho a trilhar. E nisso reside sua liberdade bem como seu desejo de escravidão. Liberdade não é poder voar, mas poder dizer não. Liberdade é afirmar a vida com os pés no chão. O simples fato de se tomar uma decisão pode ser o testemunho de uma certa liberdade que encontramos na linguagem, nas práticas de nossa linhagem. Somos, assim, seres de angústia, pois ser livre e ter o poder da escolha oferece-nos tanto o engrandecimento quanto o padecimento com o risco do apodrecimento.

E assim criamos modos de pensar diversos, princípios e práticas das mais variadas naturezas. Algumas cruéis e outras, em relação à vida, cheias de belezas. Uma delas é arquitetada pelo homem em relação ao divino, como uma orientação à conduta humana. Em contradição com Aristóteles, a moral cristã pauta-se na conduta e em seu alinhamento com a vontade de Deus, e não em nossa obra como um todo, numa justaposição com os cosmos para o exercício da vida boa. Para o grego, felicidade e ética possuem relação necessária e direta, o que não percebemos na ética cristã, em que é possível ser ético sem felicidade e, inclusive, com uma vida regada de sofrimentos. E, justamente assim, o cristão avalia seus momentos.

Ou seja, o grego se interessava apenas se a vida foi boa, na prática das virtudes e no desenvolvimento das potencialidades. No entanto, a indagação sobre a vida sofre metamorfoses com o cristão e se transforma em: “agistes bem?”.  Sendo assim, quais os critérios para o cristão responder a essa questão fundamental diante da vida, diante do outro? Encontramos, para tal, três virtudes essenciais: esperança, fé e amor. Encerro, aqui, a comparação entre o grego e o cristão para seguirmos com as virtudes em questão.

A esperança já possui um texto exclusivo neste blog, basta clicar aqui. Em resumo, a esperança é uma forma de se alegrar com o que não se tem, e possui lugar na moral cristã por não ser fonte de certezas, mas um modo de suportar as dores da vida mesmo sem garantias. Nela se alegra na espera, no possível (mesmo que improvável). No entanto, a esperança inclui certa tristeza oriunda do medo. Afinal, ela é ignorante pois não sabemos se de fato o que se espera vai acontecer. E nisso podemos padecer. Também é impotente pois, tendo em vista sua necessidade, não temos potência pra fazer acontecer. E, assim, se espera. Por fim, é casta pois se há esperança, não há gozo, pois há falta e não presença. Há apenas a carência. Ou seja, a esperança é um afeto alegre, um ganho de potência (com seus riscos) que possui como causa a imaginação.

A fé, como virtude, é o oposto da esperança, pois é uma certeza independente de uma experimentação empírica. Um conhecimento que não advém da ciência, um saber sem comprovação. A fé apresenta verdades sem métodos científicos, em que orientariam as condutas do ser humano em respeito a Deus.

A terceira e mais importante das virtudes é o amor. Já escrevi, com muito amor, três textos dedicados aos amores em geral (clique aqui), mas estamos diante de uma forma de amor específico, conhecido como ágape. E como falar de amor é sempre belo, deixemos as palavras nos encantar mais uma vez.

O amor ágape é o amor em que o outro é tão importante quanto eu, em que o outro não é um estranho, mas aquele que junto há sempre um ganho. Nesse encontro, se necessário, o “eu” não mede esforços em se apequenar para que o outro possa falar, agir e também amar, mesmo que ame algo estranho a mim mesmo. Um amor que me faz recuar para que o outro possa avançar. Um amor desinteressado, alicerçado na caridade. Amor pela humanidade. É o amor de Deus, aquele que recua para que o outro possa existir. Fundamental para o cristão pois, no paraíso, não seria preciso nem de fé ou de esperança, onde apenas o amor irá sobreviver. O mesmo que nos ajuda a viver!

Por fim, há que se pensar: nos conduzimos da forma como temos feito por esperança de termos alguma vantagem ou por medo dos castigos? O céu seria tão importante quanto o inferno? Neste caso, ainda estamos no campo do utilitarismo, agindo apenas pelas consequências, em que viveríamos de forma superficial e preocupados apenas com as aparências.

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte IV – O pragmatismo e o utilitarismo)

pragmatismo utilitarismoNo texto passado eu lhes indiquei que daríamos um passo para além da moralidade, no sentido de produzir uma ruptura com elas a partir de novas linhas de pensamento. Antes disso, vamos realizar um novo passeio nos campos da moral a partir de duas concepções tradicionais (no sentido de sobreviventes ao passar dos anos) e mesmo familiares aos brasileiros: o consequencialismo pragmático e utilitarista.

Vimos, com Kant, que podemos avaliar nossas condutas a partir de princípios independentes das circunstâncias: “devo agir dessa forma pois é como deve ser, independentemente das consequências”. Trata-se da deontologia, em que deon em grego significa dever, enquanto uma percepção absolutista. Por outro lado, encontramos os consequencialistas, ou seja, uma ideia parecida (mas não idêntica) com o dito já popularizado que diz que “os fins justificam os meios”.

Pensamento encontrado em Maquiavel, esse consequencialismo seria o denominado pragmatismo. É, portanto, relativista, pois depende das condições de como as coisas acontecem para determinados fins, em que uma conduta é avaliada pelas suas consequências, e não por princípios. Sei se agistes bem em acordo com o resultado de sua ação. Mas é necessário ter cautela com essas percepções, pois os meios podem ser altamente perversos, mesmo que o resultado seja satisfatório.

Quando a consequência atinge um grande número de pessoas, saímos do campo do pragmatismo (egoísmo) para o utilitarismo – enquanto altruísmo. Quanto maior os benefícios coletivos das consequências de uma ação, melhor será a avaliação da conduta. O pensador referência para tal é Stuart Mill. A felicidade não deve ser encontrada apenas no agente da ação, mas no maior número de pessoas possível. Vimos, nestes casos, que o critério moral muda: “uma boa ação depende de seus resultados”.

Em Aristóteles, o critério está na mediana, em ser virtuoso na justa medida entre os extremos viciosos, em que se exercita e se desenvolve as virtudes diante das adversidades. Em Kant está nos princípios, na condição de que sua máxima seja uma lei universal independente das circunstâncias. Em Piaget a moralidade é pensada a partir da psicologia, por meio da tensão entre a heteronomia e a autonomia e seus atributos.

Vimos, assim, que o consequencialismo tem particularidades e elas são muito familiares aos brasileiros. Segundo o consagrado dito popular, há sempre “um jeitinho brasileiro”. Esse jeitinho é consequencialista: conseguir algo que possa até mesmo beneficiar (ou fazer o bem a) alguém, mas de modo ilegal ou danoso. Como é o caso de cuidar de uma comunidade… desde que recompen$ado quando não o deveria. No entanto, o que interessa é a consequência (neste caso, o cuidado), e ela que avalia a ação realizada enquanto boa ou má.

Mais uma vez, estamos diante de um impasse importante para pensarmos nosso cotidiano…

… e nossa relação de si mesmo e com o outro.